A luz no fim do túnel: A reinvenção da Arquitetura na Espanha a partir da Crise

A Europa está em crise. Pelo que nos interessa, a Espanha está enterrada até o pescoço em toda lama da crise. A arquitetura, o setor mais afetado, nada nos pântanos da crise. Estamos fartos de falar da crise. Nós a encontramos de costas e sem esperá-la, chocou-se contra nossas mentes dormidas, a devoramos, a digerimos, a vomitamos.

Não necessitamos já do porquê, buscar os culpados, conhecer o quem, o como, o quando. Já sabemos de tudo.

Parafraseando David Jiménez em seu artigo O triunfo dos medíocres (El triunfo de los mediocres), “Reconhecer que o principal problema da Espanha […] é que nos convertemos num país medíocre. […] É medíocre um país onde o brilho do outro provoca suspeita, a criatividade é marginalizada – quando não  roubada impunemente – e a independência sancionada. Um país que fez da  mediocridade a grande aspiração nacional. […] Medíocre é um país que permitiu fomentado e celebrado o triunfo dos medíocres, encurralando a excelência até deixá-la duas opções: sair do país ou ser engolido pela maré imparável da cinza mediocridade”.

Saber que esta crise tem deixado de ser faz muito tempo apenas uma crise econômica. É uma crise moral e psíquica, que afeta todos e cada um dos que o amam (ou uma vez amaram) este país, que forma parte de todas e cada uma das conversas familiares, dos encontros entre amigos, das pausas de trabalho, das conversas na fila do supermercado.

A palavra ‘crise’ está há oito anos em nossa boca azedando como um vinho ruim, apodrecendo em nossos ouvidos, criando tumores em nossas cabeças. O pessimismo e a negatividade parecem deixar, como disse Borges, apenas duas opções: sair do país ou deixar-se engolir pela imparável maré cinza […].

Mas não é assim. Tem algo mais. Tem pessoas energéticas e lutadoras. Positivas e felizes. Tem pessoas reativas, químicas, explosivas. Pessoas que em momentos de prosperidade não é necessário escutar porque a vida é simples demais. Vozes sussurradas mas perpétuas, tenazes, criativas e sobreviventes. Estão aí, e quando tudo falha, quando nosso mundo estável se torna instável, os ouvidos se abrem, os olhos se tornam brilhantes e o coração começa a sentir que outra maneira é possível.

Apenas temos que fazer um breve repasse pela história para descobrir que por atrás de cada crise da índole que seja, houve um florescimento cultural, uma reação propositiva, um espírito experimental. Cromatismo atormentado inventivo, impresso na pele, fazendo o seu caminho através da floresta escura da já vista mediocridade:

– Nem todos que emigram o fazem por sobrevivência, muitos sempre quiseram abrir seus horizontes.

– Nem todos os que voltam às universidades o fazem por tédio: a maioria nunca encontrou tempo ou oportunidade de fazê-lo e era seu espinho incravado.

– Nem todos os que têm que reinventar sua profissão fazem algo que detestam, algo com menos valor para a pessoa. De cada mudança se aprende e se descobre algo.

A famosa e triste crise nos trouxe à Espanha também outras coisas; nos trouxe o fim da especulação do solo, a ruptura da arquitetura desumana, desrespeitosa, impagável, inalcançável, indigna; o respiro a nossos parques naturais que já não podiam estar mais encurralados, o aumento dos projetos de pesquisa; a consciência sustentável da arquitetura; conhecer o valor real das coisas, descobrir tudo o que cada um é capaz de fazer com suas próprias mãos; perguntamos pelo passado para caminhar em direção a um futuro possível; a multidisciplinaridade e o trabalho em equipe; a comunicação direta frente à manipulação dos meios; a união das mãos contra todas e cada uma das injustiças.

União. Consciência. Energia. Criatividade. Cooperação. Arte.

Essas são as palavras que quero escutar quando compartilho uma cerveja com um velho amigo, quando pego um avião para visitar minha família, quando vejo crescer os pequenos entre pessoas de sorriso e olhar translúcido.

Quero saber de projetos de cooperação ao desenvolvimento, de sinergias, de autoconstrução assistida, de congressos organizados por estudantes sem nenhuma ajuda financeira mas carregados de conteúdo e ilusão. Quero saber de associativismo, de cooperativas, de aldeias autogestionadas.

Quero ver esse arco-íris em que a arquitetura na Espanha luta contra o manto de tristeza e pessimismo.

Eu quero tudo… e duvido que seja a única.

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