Arte e Arquitetura: Cityscapes / Tim Jarosz

Há cidades que contaminam nossos sonhos. Retalhos de memórias de infância; breves cenas em um piscar de olhos no dia-a-dia, como um haiku, durante a rotina mais densa; desejos de permanecer para sempre entre seus meandros, ou de voar longe deles, deixando para trás suas valas metálicas, seus edifícios fissurados, seus muros e ruas que se transformam desde que nasceram. Cenas que te perseguem, esteja onde estiver, invadindo o subconsciente, lembrando-te de onde é.

A cidade natal, com todos seus significados, está enlaçada ao indivíduo tanto que seu perfil, seus cheiros, seus crepúsculos, são parte da nossa mais profunda percepção daquilo que nos rodeia, fazendo com que vejamos o mundo através dela; através de como a sentimos, como a lembramos, a sonhamos; a ela, nossa cidade.

Lê-se este sentimento na obra do americano Tim Jarosz, que cria fantásticas paisagens urbanas com fotografia, colagem e modificação digital das cores e texturas. Este fotógrafo e digner gráfico procedente de Chicago expressa em suas imagens uma inexistente e nova Chicago, viva só em seu imaginário.

Sua obra é uma declaração de amor a uma cidade e à simplicidade da vida. Sem grandes acrobacias filosóficas que justifiquem sua produção, o trabalho de Tim é tão natural como a busca pela beleza nas coisas que constituem nosso cotidiano.

“Quero que minhas fotografias das ruas sirvam para representar o que vejo todos os dias e o que creio ser belo. Gosto de fotografar a gente, os graffitis, os espaços e os detalhes pelos quais se passa todos os dias e são ignorados. Tento capturar imagens de momentos espontâneos no momento em que são puros e sem intenção” Apesar de algumas de minhas fotografias serem um pouco obscuras ou tristes, ainda sinto que é bonito.” (entrevista em Ipaintmymind). 

USA

Essa beleza dos detalhes cotidianos que talvez passem desapercebidos é percebida por Tim. Os reconhece o acumula como um arqueólogo urbano, influenciado por Chicago, sua cidade, e os Cityscapes que esta gera. Estas fotografias são a matéria prima para o processo de edição posterior, que colore de sentimentos subjetivos os muros e ruas de sua fictícia cidade particular.

“Meu processo é sempre um pouco diferente para cada obra, mas todas seguem um padrão similar. Meu trabalho sempre começa com a fotografia. Sempre estou caminhando pela cidade tirando fotos de coisas que me parecem interessantes. Suponho que chamaria de fotografia de rua. Depois de obter um conjunto sólido de edifício ou telhados fotografados, passo para a colagem e a edição conjunta. Uma vez conformada uma composição interessante, começo a adicionar algo de cor e textura como tratamentos à peça. Essa parte é sempre diferente: brinco com ela até que sinta que funciona. Finalmente é feita a edição até que a expressão se complete Eu não seria capaz de criar meu estilo de trabalho sem o uso da fotografia e do desenho por igual. Para mim ambos partem das mãos e são parte fundamental da minha obra”.

O resultado é uma composição irreal formada por retalhos reais de cidade, onde linha e cor se entrecruzam sensualmente. Como fotógrafo e desenhista, Tim se vê continuamente atraído pela cor e pelas texturas. Ainda que seu porcesso incorpore uma edição digital, as imagens de origem possuem já como atributos esse potencial jogo.

“Definitivamente gosto do uso da cor em meu trabalho. Em sua maior parte, a cor da obra é fiel à vida, mas é generosamente enfatizada. Creio que a forma na qual os edifício se combinam é o que realmente traz o destaque. Claro que as cores são avivadas, mas buscando enfatizar somente o que já está ali.”

“[…] Creio que os muros urbanos são interessantes. Me atrai como a cidade vai se cobrindo de graffiti  street art, e como estes são cobertos com cores feia como uma solução. Aos meus olhos isso é pior, mas gosto da composição e dos contrastes que criam”

Da mesma forma que as fachadas escondem camada após camada de pintura os vestígios de intervenções anteriores, o processo de edição de Tim Jarosz parece fazer o mesmo, alimentando suas diversas aplicações criativas até gerar ornamentadas interpretações da cidade original. Seu trabalho final, eminentemente visual e estético como desenhista que é, é plenamente vibrante, dinâmico e vivo e é, de certa maneira, a particular visão de Tim sobre sua cidade-musa.

Uma atividade evocadora e atrativa, expansível a outras cidades, a outras paisagens urbanas que buscar e encontrar, que se enredar ritmicamente, sem desatar-se inevitavelmente dela, da única cidade que o viu crescer.

Texto: Ana Asensio Rodríguez / Fotografía: Tim Jarosz / Publicado em Plataforma Arquitetura por Ana Asensio. Tradução ArchDaily Brasil by Joanna Helm /  18 May 2013 / Primeira publicação: Plataforma Arquitectura